quarta-feira, 30 de junho de 2021

Islândia, um impacto na Dorsal Mesoatlântica

A Islândia é uma grande ilha situada exatamente na fratura entre os continentes da América e Eurásia-África.

Esses blocos continentais vêm se separando há centenas de milhões de anos e enormes fluxos de lava ocorreram ao longo de sua extensão, mas nenhum deles foi suficientemente grande para gerar uma ilha no meio do Atlântico, exceto a Islândia.

Por que a exceção?

Se a Islândia foi criada por um evento geológico normal, por que não há várias outras ilhas ao longo da Dorsal Mesoatlântica?

A resposta está em um impacto ocorrido há aproximadamente 58 milhões de anos.

O impacto ocorreu exatamente sobre a fratura, o que facilitou o derrame de lava das proporções necessárias para fazer surgir do fundo oceânico um complexo vulcânico com 103 mil km2 de área emersa e uma plataforma vulcânica com aproximadamente o triplo disso.

Essa torre vulcânica mostra um formato oval, mas se descontarmos a expansão devido à deriva continental, teremos um astroblema perfeitamente circular com diâmetro aproximado de 500 km.


Conforme a Wikipedia em inglês, a ilha é composta principalmente de basalto, uma lava de baixo teor de sílica associada a vulcanismo efusivo, como ocorre também no Havaí. 

Ora, o Havaí é o melhor exemplo de vulcanismo gerado por impacto como demonstrado na explicação sobre a proposta Cratera Rohe, um dos principais impactos que determinou a extinção Cretácea.

Há evidências de um impacto?

Sim, a começar pela datação da origem da ilha, estimada entre 57 e 53 milhões de anos.

Não houve nenhuma extinção comparável à do Cretáceo há 57 milhões de anos, mas ocorreu uma extinção significativa que marca a divisão entre o Paleoceno e o Eoceno há 58 milhões de anos.

Esse evento extremamente significativo é chamado de Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (MTPE).
Em inglês, Paleocene–Eocene Thermal Maximum (PETM), "Eocene thermal maximum 1" (ETM1), ou "Initial Eocene" ou "Late Paleocene Thermal Maximum".

Houve um pico da temperatura oceânica que depois se prolongou durante o período eocênico.

Esse aquecimento posterior pode ser explicado como consequência do intenso vulcanismo que gerou a Islândia, mas como explicar o pico repentino que caracteriza a extinção do Paleoceno-Eoceno?

Há alguma evidência concreta de um impacto?

Sim. 

Essa teoria foi proposta no estudo "A case for a comet impact trigger for the Paleocene/Eocene thermal maximum and carbon isotope excursion" pelos pesquisadores D.V. Kent, B.S. Cramer, L. Lanci, D. Wang, J.D. Wright, R. Van der Voo em 2002.

Uma das evidências é a anomalia de irídio, um forte indicador de impactos extraterrestres, na região de Zumaia, Espanha. 

Também foi encontrado um teor de irídio acima da média em Nova Jérsei, do outro lado do Atlântico, além de microtectitas (esférulas vítreas formadas em impactos). Sem falar em uma camada típica como aquela associada ao evento de Chicxulub.

Esses pesquisadores chegaram a estimar a massa de um suposto bólido, mas reconheceram uma discordância entre os valores propostos e a espessura relativamente fina da camada encontrada — 100 Gigatoneladas apenas de carbono para justificar o efeito estufa calculado.

Para eles, essa massa, atribuível a um cometa, deveria ter afetado o planeta em uma escala comparável à extinção do final do Cretáceo, o que não se verificou. Mas é algo que pode ser explicado pela absorção do impactador pela fratura já existente.

Esse mecanismo explica o pico de temperatura inicial pela energia do impacto em si. Também permite interpretar o volume de lava excepcional que fez surgir a Islândia e a ausência de uma cordilheira vulcânica associada ao impacto: 

A ilha é a soma de todos os vulcões que constituiriam uma cordilheira, mas concentrados no ponto de separação entre duas placas tectônicas.

O grande problema desses cálculos é que eles são feitos tomando por base o único evento de grande impacto analisado pelos cientistas, Chicxulub.

Ora, as evidências apontadas em meus outros estudos mostram que Chicxulub foi um impacto relativamente pequeno.

Outros impactos da extinção cretácea ocorreram nas Américas do Sul e do Norte, e provavelmente no Caribe, em uma rajada desde o Atlântico Sul até possivelmente o norte do Pacífico — sem contar a outra possível rajada das crateras propostas Shiva, Rohe e possivelmente Spratly.

A teoria dos múltiplos impactos estabelece uma proporcionalidade entre os níveis de mortalidade da extinção cretácea correlacionada à extinção permiana, bem como a possível rajada das crateras propostas Shoemaker-Levy (placa tectônica de Nova Scotia) e Alvarez (arco vulcânico do Caribe com hotspot em Cabo Verde, no centro da província ígnea do Atlântico Central).

A teoria do impacto sobre a Dorsal Mesoatlântica permite explicar não somente a anomalia do PETM e a anomalia de irídio observada, mas também o vulcanismo atípico que formou o planalto da Islândia.

Esse fenômeno só encontra comparação com o planalto e vulcanismo da Meseta de Kerguelen, no sul do oceano Índico, que por sua vez pode ser associado à cratera de Wilkes Land na Antártida.

Datações estimadas para Wilkes Land tentam atribuir o impacto à crise do Permiano, mas se considerarmos a data estimada para as rochas de Kerguelen, veremos que esse impacto ocorreu possivelmente há 117 milhões de anos, um evento de microextinção que marca o período Cenomaniano.

A Cratera de Wilkes Land tem um diâmetro estimado de 550 km, algo que pesquisadores pensam que poderia justificar a extinção permiana, mas uma confirmação irá demorar porque ela se encontra abaixo de quilômetros de gelo e somente foi identificada por varredura de radar.

Se considerarmos as propostas crateras Wegener, Tarim e Bedout como causadoras da extinção permiana (sendo que o impacto de Wegener resultou no derrame antipodal na Sibéria), veremos que os 550 km da cratera de Wilkes Land e intenso vulcanismo de Kerguelen são compatíveis com uma pequena extinção.

O viés está na menor massa terrestre encontrada no hemisfério sul, menor biomassa existente e menor atividade de pesquisa de fósseis e possíveis impactos extraterrestres. 

Esta é uma corrente de pensamento que vai de encontro à opinião acadêmica reinante, a qual levará décadas para ser revertida.

Isso ocorrerá somente quando datações precisas forem atribuídas aos impactos propostos confirmando as teorias, da mesma maneira que a teoria de Wegener sobre a deriva continental somente foi reconhecida quando surgiram evidências das fraturas do fundo oceânico que delimitam as placas tectônicas.


A case for a comet impact trigger for the Paleocene/Eocene thermal maximum and carbon isotope excursion
D.V. Kent a;b;, B.S. Cramer a;c, L. Lanci a;d, D. Wang e, J.D. Wright a, R. Van der Voo e

a Department of Geological Sciences, Rutgers University, Piscataway, NJ 08854, USA
b Lamont-Doherty Earth Observatory, Palisades, NY 10964, USA
c Institute of Geology and Paleontology, Tohoku University, Sendai 980-8578, Japan
d Instituto di Dinamica Ambientale, Universita' di Urbino, 61029 Urbino, Italy
e Department of Geological Sciences, University of Michigan, Ann Arbor, MI 48109, USA

Received 25 June 2002; received in revised form 22 March 2003; accepted 31 March 2003

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