quarta-feira, 30 de junho de 2021

Eram os deuses asteroides?

Se você leu o título e entendeu "deuses astronautas", não é coincidência: as duas coisas estão bastante relacionadas. E lendo este trabalho você descobrirá que em determinado momento da história da humanidade, astronautas e asteroides tinham o mesmo significado...

Aster e astro significam a mesma coisa: estrela. 

Sua origem está no grego antigo ἀστήρ (astḗr), enquanto astro é a forma latina da mesma palavra.

Então um astronauta é um nauta das estrelas, um navegante espacial.

Já "oide" quer dizer "em forma de". Um esferoide é algo que lembra uma esfera, mas pode ser ligeiramente imperfeita, como nosso planeta Terra, ligeiramente achatado nos polos — ou gorduchinho na cintura (diga não à gordofobia!)

Um androide tem a forma de um andro (de Άνδροςm, ándrós, 
homem em grego) — parece um ser humano, mas não é. 

A forma feminina do androide é ginoide (palavra que ninguém usa) e vem do grego γυνη, gynē - mulher).

Da mesma forma, um ovoide tem a forma de um ovo, mas não é orgânico. E debiloide é aquele que age sem usar a inteligência, ou seja, semelhante a uma pessoa com deficiência intelectual.

Então asteroide originalmente queria dizer "em forma de estrela". Algo que parece uma estrela, mas não é.

Mas por que tem a forma de uma estrela, se são coisas tão diferentes? Estrelas têm luz própria e asteroides não brilham no céu.

Quer dizer, não brilham, a menos que você olhe com um telescópio. E os primeiros asteroides vistos com essa nova tecnologia não se encaixavam no conhecimento ancestral dos objetos celestes.

Um asteroide parecia uma estrela muito fraca, não um disco como um planeta visto ao telescópio. Mas as estrelas ocupam posições fixas no céu, e os asteroides se moviam da mesma forma que planetas. Também não eram cometas. Nem "estrelas cadentes". Por um bom tempo chegaram a ser chamados de planetoides, e agora recebem nomes diferentes em função do seu tamanho.

Mas por que tantos nomes e tanta confusão?

Para entender, imagine como viviam os homens de antigamente, sem acesso a informações e sem meios de pesquisar na internet ou em livros: era um tempo em que se acreditava no que os outros diziam, geralmente os mais velhos e experientes — aqueles que entendiam melhor o mundo. 

Ou que pensavam que entendiam, porque informação é poder. Explicar um fenômeno misterioso ganhava o respeito da comunidade.

Os conceitos que eles tinham do mundo se baseavam somente naquilo que viam ou que era passado pelas gerações anteriores na forma de histórias e tradições narradas em volta da fogueira.

Tudo no mundo era mistério, então esses "sábios" primitivos usaram seu raciocínio para elaborar conceitos que hoje ninguém mais acredita. 

Conceitos como a terra plana, por exemplo, serviam para explicar "logicamente" a sua realidade de mundo que não era maior que poucas dezenas de quilômetros em volta da sua aldeia. 

Esses homens começaram a dar nomes às coisas de acordo com o seu entendimento, então tudo que viam no céu eram estrelas, o Sol e a Lua.

Mas volta e meia acontecia algo surpreendente: uma estrela saía de sua posição no céu, e se movia rapidamente. Algumas "estrelas" até caíam nas vizinhanças, causando enorme estrondo e terror.

Qual a explicação disso? 

Ora, eram estrelas que caíam do céu, daí "estrela cadente", o astro que cai. Muita gente até hoje chama os meteoros e bolas de fogo por esse nome, e uma boa parcela acredita que realmente são estrelas despencando de lá de cima.

Isso acontecia na atmosfera, a esfera de ar que circunda a Terra. Pois é, há dois mil e quinhentos anos eles sabiam que ela não era plana. 

Meteoro (μετέωρο) era o nome de tudo aquilo que acontece no céu, dentro da atmosfera. Esse estudo se tornou um ramo de estudos da filosofia natural, depois ciência, a meteorologia.

E as "estrelas cadentes", um fenômeno que chamava tanto a atenção que "meteoro" acabou se tornando sinônimo desse tipo de fenômeno celeste.

A meteorologia se tornou algo tão complexo que gerou um ramo de estudos separado; era necessário estudar detalhadamente os astros, dar-lhes nomes para facilitar a comunicação, desenhá-los, transmitir os conhecimentos adquiridos por anos de observação do céu e raciocínio.

Esse estudo se tornou a astrologia, que focava na influência dos fenômenos do céu sobre a vida dos humanos — que nunca serviu para nada, a não ser garantir a sobrevivência financeira de quem a praticava — e a nomeação dos corpos celestes se tornou a astronomia.

Levou muito tempo para que a astronomia fosse vista como algo útil e capaz de dar sustento a seus pesquisadores. Muita gente boa garantiu o prato do dia vendendo horóscopos de dia e estudando o céu com seriedade à noite. Estão aí Tycho Brahe e Johannes Kepler que não me deixam mentir.

E aí entra em cena o meteorito. Meteorito vem da união das palavras meteoro lito, rocha. Por isso, meteorito, a rocha do céu, é sinônimo de aerólito, a rocha aérea.

Quedas de meteoritos foram registradas desde sempre. Alguns até entraram para a História como objetos de adoração, ao redor dos quais construíram templos para apaziguar os deuses que os haviam lançado em um momento de fúria. Ou numa batalha celeste. Ou durante a construção do seu palácio nas nuvens. Ou por mero capricho, porque deuses eram incompreensíveis e imprevisíveis.

Há o registro histórico de um faraó egípcio (dã) que almejava dominar a cidade de Betel porque nela um dos seus deuses — dos egípciosnão dos cananeus — havia colocado os pés quando passeou por lá em pessoa.

Sem contar a tradição bíblica que diz que Jacó sonhou com uma escada para os céus depois de dormir com a cabeça apoiada em umas das pedras que havia por ali — nas traduções mais próximas do hebreu/grego, essa "pedra que estava por ali" era chamada de baetylus, betilo.

Betilos eram fragmentos de meteoritos venerados pela população, assim como há muitos casos semelhantes de meteoritos considerados presentes, lembranças ou ameaças dos deuses em várias e várias religiões.

Como eram objeto de adoração de povos pagãos que precederam os hebreus, tradutores foram eliminando essa palavra da bíblia porque pegava mal venerar pedras em vez de Javé/Deus.

Até dez anos atrás, era possível ver no Google Earth uma depressão circular nos arredores da cidade que perfeitamente poderia ser atribuída a um impacto, cheguei a rascunhar um TCC sobre isso.

Infelizmente, o HD daquele computador foi para o espaço, a anta não tinha backup, abandonei aquela faculdade, e quando retomei esse estudo, já tinham construído um loteamento naquele local e não encontrei mais imagens de satélite daquela época.

Voltarei a falar de meteoritos quando falar sobre antas. E não, essas antas não são os nossos quadrúpedes debiloides. Acredite ou não, estão relacionadas a asteroides... Por que será que a frase "Aaantas no espaçoooo!" me veio à cabeça?

Bom, falamos um pouco dos meteoritos, e voltaremos a tratar deles em breve. E como ficam os planetas e asteroides?

Asteroides não são visíveis a olho nu, portanto os gregos nunca cogitaram a existência do que chamamos hoje de asteroides. Se cogitaram, isso não ficou registrado, perdeu-se na História.

A observação do céu revelou que todas as estrelas se moviam em conjunto, como se estivessem presas a uma redoma de cristal sobre a terra (que era plana pra todo mundo, até que os gregos raciocinaram e provaram que não era).

Mas o movimento dos astros era sempre o mesmo, todos girando em uma única direção ao redor de um ponto que foi batizado de polo norte para eles lá no hemisfério de cima.

E além das "estrelas cadentes" e das "estrelas fixas" — hoje sabemos que todas se movem independentes, mas o espaço é tão grande que o movimento só pode ser detectado depois de muitas gerações por meio de medições e registros precisos — havia outras "estrelas" que se moviam lentamente no céu, vagavam pela esfera celeste em trajetórias erráticas. 

Uma parte do ano iam numa direção, ora em outra, como se tivessem vontade própria e nenhum objetivo na vida. E como quem vagava à toa por aí era um planeta, esse foi o nome que esses astros errantes receberam.

Para a imensa maioria, os astros errantes se moviam à nossa volta presos à mesma esfera de cristal mágico, e essa ideia persiste até os dias de hoje porque foi imortalizada em vários livros sagrados — apesar de Aristarco de Samos ter lançado a hipótese de que a Terra e todos os planetas giravam ao redor do Sol uns 200 anos antes de Cristo. 

Foi somente depois de Galileu aperfeiçoar o telescópio e apontá-lo para a Lua e outros planetas que começou a ficar claro que os planetas não eram apenas luzinhas esquisitas no céu, mas mundos iguais ao nosso. 2220 anos depois de Aristarco e 410 anos depois de Galileu, ainda tem gente que não entendeu a ideia. Ou finge que não entende porque é mais fácil não pensar. 

Asteroides somente foram descobertos com o uso de telescópios, porque são minúsculos comparados aos planetas e apenas refletem a luz do Sol, nem sempre com muita eficiência.

Foi então que se percebeu que meteoritos eram asteroides pequenos, ou fragmentos de asteroides (e até de nossa Lua e outros planetas e suas luas) que caíam na Terra.

No começo se pensou que asteroides eram fragmentos de um planeta desintegrado, mas o consenso hoje é que se tratam de restos dos blocos primordiais que se aglutinaram durante a formação do sistema solar, mas não conseguiram se condensar para formar um planeta ou satélite.

Suas órbitas seguem aproximadamente a dos planetas, mas volta e meia acabam sendo perturbados pela aproximação de outros corpos celestes, acabam colidindo uns com os outros, ou se aproximando demais da atração gravitacional de algum planeta, gerando fragmentos.

Então, para padronizar a linguagem, um pequeno resumo:

Asteroides são fósseis da formação do sistema solar, meteoroides são asteroides minúsculos ou fragmentos que se aproximam de nosso planeta, meteoros são o fenômeno luminoso e às vezes estrondoso quando se queimam em atrito a altíssima velocidade com a atmosfera, e meteoritos são os meteoroides que chegam a atingir o solo.

Quando grandes asteroides se chocam com um planeta o impacto é violentíssimo, capaz de lançar ao espaço fragmentos da crosta do planeta atingido. Já foram encontrados aqui na Terra meteoritos de origem lunar, marciana e até de Mercúrio, além de fragmentos dos grandes asteroides Palas (545 km) e Vesta (530 km) que orbitam entre Marte e Júpiter.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas não falei dos cometas...

Cometas são um capítulo à parte, não dá para falar sobre eles sem entender esses conceitos básicos de astronomia e meteorítica. Pois é, o estudo de meteoritos cresceu tanto que gerou um novo ramo da Ciência.

E a partir daí começa a explicação dos deuses astronautas e deuses asteroides.

Um abraço,

Jeff

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